vera brant

oil on canvas, 2019

Texto por Graca Ramos

 

As duas pinturas apresentadas por Silvie Eidam foram bastante influenciadas pela residência na Oscar Niemeyer. A atmosfera noturna da casa domina as duas telas apresentadas, ambas sem título, segundo decisão da artista. Gosto, porém, de considerá-las autorretratos à luz da angústia. 
Silvie chegou à residência com muitas inquietudes sobre o encaminhamento do seu trabalho. Não eram especificamente a respeito do que faria na residência.  Mas se, em sua trajetória, precisaria explorar com mais ênfase a linguagem dos vídeos; se o melhor caminho seria fazer pintura-instalação; se investiria em pintura mesclada a vídeo. 
Perguntei-lhe o que mais gostava de fazer. Sendo a resposta “pintar”, sugeri que se desafiasse dentro do campo da própria pintura, produzindo algo que nunca tivesse tentado dentro do discurso pictórico – uma cor inexistente em sua linguagem ou telas de dimensões nunca testadas, provoquei. Cheguei a sugerir uma composição em forma de tríptico, em que cada uma das partes também pudesse oferecer leitura quando separada do conjunto. No encontro seguinte, ela me mostrou duas telas menores que começara a pintar, mas avisou que não tinha gostado do incipiente resultado e iria pintar telas de dimensões a que estava habituada.
Após me contar que suas pinturas de figuras femininas são baseadas em fotografias que ela mesma capta de si (por receio de importunar alguém para tirá-las; por certa timidez em se expor quase desnuda), quis saber se entendia essas pinturas como sendo autorretrato. Diante de sua dúvida, repassei-lhe textos de Derrida em que o autor define o autorretrato como um ato de arbítrio do artista. As conversas e as leituras surtiram algum efeito.
Em novo encontro, ela me mostrou fotografias impressas – dessa vez feitas por colegas de residência em que um corpo feminino – o corpo da artista – está parcialmente desnudo, vestido apenas com uma calcinha. Em ambas, o rosto está encoberto. Estranhei o fato de uma das imagens ser uma paisagem e Silvie me informou que tentaria pela primeira vez pintar uma vista, sua visão do jardim da residência Niemeyer.
Prontas, as duas telas se apresentam bastante diferenciadas – a vertical, concentra-se em um elemento, o corpo feminino que segura a carcaça de um animal; a horizontal é um panorama, a paisagem do jardim, sendo o corpo de mulher um dos vários elementos da composição.  
As duas pinturas estão impregnadas de tensão onírica com vigorosa invocação ao fantasmagórico. Em cada uma delas, a realidade matérica dos diferentes azuis – da Prussia, aço e turquesa – modula a luz, como se a artista desejasse fundir o feminino à noite, mesmo naquela em que a figura humana aparece em dimensões mais reduzidas, pois a sombra do corpo se amalgama a das árvores.   
O uso do azul revelou-se novidade. A paleta anterior da artista pouco explorava essa cor. Em especial, nunca tinha recorrido ao azul-aço e ao turquesa. Nesse jogo cromático, o recurso ao azul da Prússia, empregado na ambiência do noturno, produziu sensação aquática. Como efeito, as telas de Silvie provocam o desejo de mergulho, sendo que, naquela dominada pela mulher com a máscara-ossada, o convite é para nos abismar nas águas profundas da introspecção.  
Talvez tenha sido a utilização do azul que provocou outras mudanças na pintura de Silvie. A pincelada, disse-me ela, ficou menos aparente, mais sútil: “mudei as cores e parece que a pincelada também quis se reinventar”. Ou poderá ter sido o desejo da artista de apreender a intensidade do jogo de luz e sombras das noites do cerrado que a deixou mais tímida? Nem ela, nem eu, ainda não sabemos responder.